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Quem não Conta Desconta! Parte II

Continuando a nossa conversa sobre a importância da escuta do que está por trás do comportamento de uma criança, enquanto fui diretora de escola, uma grande preocupação era a permanência dos alunos na instituição, para a sustentação das suas atividades. Perto de encerrar a manhã, acreditando que seria um dia tranquilo, eis que ouço a voz forte de um pai a gritar: “vou tirar a minha filha dessa escola!”. Se havia uma palavra que ativava o nosso sistema nervoso, na época, era tirar o filho da escola. Rapidamente corri para ver o que estava acontecendo, de forma a evitar o não desejado.

Deparei-me com um pai a gritar, que já não aguentava mais a filha sair da escola machucada. Ele era alto, forte e de voz grossa. E pedi que tivesse um pouco de paciência, e me desse uma semana para observar a sua filha. E assim foi feito. Vale ressaltar, alguns pontos observados. Ela era uma criança de 2,5 anos, filha e neta única, que pertencia a uma sala em que a grande maioria dos educandos era filho único. Tanto a professora quanto a assistente da sala eram baixas.

No primeiro dia de observação, recebo Tininha, nome fictício, em minha sala, pois havia se machucado na escorregadeira. Observamos o seu machucado, cuidamos e ela voltou à sala de aula. Assim que o sino tocou, o pai de Tininha chega, e ela correndo para os braços do pai, sorrindo, diz que havia se machucado. Sorrindo? Sim. Isso mesmo que você leu. S O R R I N D O.

Quando o pai percebeu que a filha estava novamente machucada, foi à sala de aula e deu uns bons gritos na professora e na assistente. Percebi, de longe, que a relação estabelecida pela professora com o pai, era de medo. E apenas observei. Depois do ocorrido, convidei a professora para ir à minha sala e perguntei se ela tinha medo do pai. Confirmando a minha percepção. Além de grande, forte, alto, tinha um tom de voz intimidador.

No dia seguinte, convidei os pais para uma reunião, e além de pontuar para o pai a forma como ele se dirigiu à professora, informei a minha hipótese: a filha “usava” o pai para descontar na professora o que não podia fazer com ela. Pois, não suportava ser contrariada, além das nuances da idade, onde a personalidade egóiga se fazia presente. Então, todas as vezes que a professora dava limites a ela em sala de aula, a criança ficava contrariada e usava o pai para descontar. Como assim? Uma criança de 2,5?

Era apenas uma hipótese. Então, solicitei a mãe que a partir daquela data, viesse pegá-la na escola e que informasse a filha, que todas as vezes que a professora fizesse algo com ela e que a contrariasse, conversasse com a professora. Que ela não precisava mais, por meio dos seus machucados, pedir ao pai que brigasse com a professora. Como assim? Não pode ser. Ela tem apenas 2,5. Foi essa a resposta que ouvi dos pais. E ressaltei, que era apenas uma hipótese, e como hipótese, precisava ser testada.

Resultado: hipótese confirmada. A partir do momento em que a mãe passou a buscá-la na escola, e, informou a filha do que deveria fazer quando contrariada, tudo se acalmou.

Enfim, foi então que fizemos um acordo. A partir daquela data, se o pai viesse pegar a filha na escola, deveria  limitar-se a ficar no portão, aguardando-a. E assim foi feito. Assim foi contado e não mais descontado. E quem quiser que duvide da capacidade de uma criança.

Eulina Lavigne é mãe de três filhos, Administradora, Terapeuta com formação em Constelação Familiar,  especializando-se em Trauma pela escola de Medicina da Bahia, formada em Experiência Somática e membro da Associação Brasileira de Trauma.

 

 

 

 

 

 

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