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Como fortalecemos a mentira

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Esta semana fiquei refletindo como nós, pais, educadores, contribuímos para que a corrupção se instale em um sistema. Como fortalecemos a mentira, a enganação sem nos darmos conta disso. E quero fazer essa reflexão no sentido de alterarmos práticas tidas como normais e muitas vezes educativas quando passamos a atuar dentro de um padrão de normalidade que o antropólogo, psicólogo e reitor da Universidade da Paz, Roberto Crema caracterizou como a patologia da normose. Ou seja, um comportamento que a maioria da população pratica e que é patogênicos, com uma dimensão destrutiva para si e para os outros.

Todas as vezes que uma criança age fora dos padrões aceitáveis em seu meio social ela é punida por isso, ao invés de ser orientada a fazer diferente. E isso traz consequências terríveis para a nossa sociedade que por acreditar ser a punição um ato normal e assim praticado pela maioria não trará maiores transtornos. Por exemplo, vamos falar da mentira. Como ela se instala e torna-se um movimento normal?

Digamos que uma criança, sem querer, quebrou um objeto de valor em sua casa e o pai ou a mãe quando chegam questionam para aqueles que residem na casa quem foi o autor do fato. E todos permanecem calados. Questionados com mais intensidade uma criança resolve confessar que foi ela e leva um tapa ou é proibida de brincar com os seus amigos. Resultado, nesse momento cria-se a crença, para a criança, que dizer a verdade é algo ruim. Que mentir é melhor, pois assim fazendo, vai evitar receber um tapa ou até mesmo fazer o que gosta que é brincar com os amigos.

A criança vai para escola e essa crença se repete quando, por exemplo, ela sempre nega que fez algo de errado para evitar uma punição. Dessa forma instala-se um padrão de comportamento para evitar que situações como essas se repitam.


Quando adulta, sem perceber, esse ciclo se reforça quando deixa de denunciar fatos ilícitos ou prefere se inserir em esquemas para não sofrer represálias ou atos de vingança. O medo passa a aparecer como elemento de reforço de todo esse aprendizado, a verdade passa a ser a vilã da história e assim a imoralidade, o jeitinho para que tudo fique encoberto passam a compor a patologia da normose.

E a mentira é utilizada para encobrir atos como também sentimentos, porque sentimentos qualificados como ruins como a raiva, o medo, a inveja, o egoísmo são reprimidos da mesma forma. E alguns podem estar se perguntando se eu acho normal uma criança sentir raiva, sentir inveja, ser egoísta e fazer coisas consideradas como erradas e ficar por isso mesmo.

Não. Não acho normal e acho natural. Pois, infelizmente ou felizmente isto tudo faz parte da natureza Humana e não da norma. Estou me referindo à forma como lidamos com o que é natural. Não dá para negar os fatos e nem sentimentos emergentes e dá para lidar com eles de forma mais madura. Temos condições de ajudar uma criança que diz sentir raiva a extravasar a sua raiva em uma brincadeira e não batendo em uma outra criança. Temos condições de ouvi-la falar sobre a sua raiva sem repreende-la. Temos condições de procurar saber o que levou a criança a quebrar uma peça de valor, para compreender o que está por traz do sentimento ou do fato ocorrido.

Todas as vezes que identificava uma mentira na fala dos meus filhos eu simplesmente levava-os a um espelho, colocava-os em frente ao mesmo e perguntava: diga-me para quem mesmo você está mentindo? Diga-me quem você está enganando? E me lembro que depois disso vinha um silencio profundo e uma reparação interna.

Acolhendo a natureza dos nossos filhos, desenvolvendo uma escuta acurada e educativa quem sabe ajudaremos no futuro a formação de uma juventude mais engajada com a verdade sem medo de ser quem são e re-significando padrões de comportamentos.

Artigo publicado no jornal Diário de Ilhéus em 8/12/2017 e republicado em 30/08/2019.

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