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Com pena não! ComPaixão!

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Durante muito tempo em minha vida sentia pena. Pena daqueles que eram de alguma forma discriminados, que por algum motivo sofriam ou entendiam que eram injustiçados.

Até que a vida me ensinou que precisava trocar o sentimento de pena pelo sentimento de compaixão. A palavra compaixão deriva do latim compassio – ato de partilhar o sofrimento do outro, ou melhor, olhar para o outro com olhos amorosos. Olhar com os olhos do coração.

Aprendi que pena é um sentimento que retira do outro a sua dignidade. É como se nos colocássemos em uma posição superior àquele Ser que se encontra em situação vulnerável, e este seja incapaz de sair do lugar ou da situação em que se encontra.

Devemos sempre dignificar o outro para que se fortaleça e altere a sua situação. Só quem se encontra em uma situação que lhe enfraquece pode escolher sair dela a partir de um novo olhar sobre aquela situação. Não somos super-heróis e nem salvadores da pátria. Podemos sim ser agentes de mudança, trazendo um novo ritmo, um novo tom para o outro experimentar ou até uma nova dança. E o outro tem livre arbítrio para entrar ou sair da dança e se responsabilizar pela escolha que fizer.

E voltando à compaixão, esse olhar amoroso precisa ser um exercício diário e constante. O olhar compassivo cobra de nós paciência e persistência. Cobra também atenção e escuta para perceber o que há por traz de ações que desejam se perpetuar no Ser, e que o faz ficar paralisado quando precisaria agir.

Logo que cheguei para morar em minha comunidade fui informada que o filho de um dos parceiros com o qual divido a minha terra estava com um caroço muito grande no pescoço. Imediatamente chamei a mãe e filho para verificar do que se tratava.

Há três anos aquele menino de 15 anos estava com aquele caroço e os pais, mesmo sem recursos gastaram quase R$2.000,00 com exames particulares e deixaram de tomar providencias quando um médico cobrou R$7,000,00 para fazer a cirurgia do garoto. Há três anos que aqueles pais deixaram de acreditar que valia a pena lutar pela vida daquele filho.

Imediatamente levei mãe e filho para a cidade e providenciei uma consulta médica. A consulta foi marcada e a mãe não compareceu. A minha primeira reação foi de raiva. Raiva daquela mãe inconsequente, desumana e ponha adjetivos em minha boca.

Respirei e remarquei pela segunda e pela terceira vez, pois a mãe não conseguia ir com aquele adolescente ao médico. Fiquei indignada por um instante, e logo saí desse lugar pois o nosso mestre Bert Hellinger, mentor da Constelação Familiar, ensina que quando nos indignamos nos vitimizamos e nos eximimos da responsabilidade. O negócio é partir para a ação.

Dei uma nova respirada e perguntei àquela mãe o que ela acreditava que estava informando ao seu filho sem sequer dizer uma palavra. Ela não tinha a resposta. E eu precisei informá-la que estava a dizer: Meu filho, não vale a pena lutar pela Vida! Então ela chorou.

Aquele choro tocou o meu coração e perguntei quantos anos ela tinha quando nasceu o primeiro dos seus cinco filhos. E ela cabisbaixa me respondeu que tinha 15 anos.
Foi o suficiente para eu compreender a sua dificuldade. Ela provavelmente não foi cuidada, e sem tempo de se cuidar desconhecia de que forma poderia cuidar daquele filho.

No fundo era o medo de não dar conta do diagnóstico que poderia vir a ser.
E foi a compaixão que me fez remarcar o exame do seu filho e dizer a ela que estaria junto na consulta e eu não diria uma palavra. Apenas para que ela se sentisse um pouco cuidada e fortalecida para agir.

Confesso que julguei aquele pai e aquela mãe, e graças a Deus penso que foi a paixão e o amor que tenho pela vida que me fizeram incluir outras possibilidades. Que me fizeram enxergar que nem sempre uma falta de ação é simplesmente uma omissão. Há muita dor e um grande segredo: o medo.

Artigo publicado no jornal Diário de Ilhéus e no blog do Thame em 18/05/2018.
http://www.blogdothame.blog.br/v1/2018/05/19/com-pena-nao-compaixao/#more-76461

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