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MATERNaIDADE

Me tornei mãe aos 28 anos e tive mais três gestações, sendo a última quase aos quarenta anos. E, para mim, não há época melhor na vida da mulher do que cuidar de uma criança, seja ela gestada da barriga ou do coração.

Me via completamente envolvida. Eram dias de muita ternura onde aprendi a cuidar , a lidar com a fragilidade no tocar, no falar, a escutar, a dar limites, a dar colo, enfim uma dádiva.

A ligação materna por meio da amamentação, do olho no olho, para mim era algo de que eu não abria mão.

É na maternidade que compreendemos a nossa mãe e percebemos quantas cobranças fazemos a ela, pelas ausências, por não fazer do jeito que gostaríamos, por dar limites, por dizer não na hora necessária. É quando percebemos o quanto desejávamos tê-la por perto e a realidade da vida a impedia de assim proceder.

É na maternidade que intensificamos as nossas culpas e nos cobramos demais. E é na maturidade que compreendemos que fizemos e fazemos o que podemos pelos nossos filhos e que somos a mãe necessária para eles.

É na maternidade que aprendemos a negociar. Comigo pelo menos foi assim. Lembro de um fato muito interessante que aconteceu comigo e a minha filha mais velha. Eu estava chupando manga à noite. E ela, com os seus 4 anos de idade, veio me pedir para chupar manga. E eu, com as minhas crenças limitantes e com um excesso de cuidado, disse que não daria pois a manga era muito indigesta.

Curiosa que é, me perguntou o que era indigesta, e expliquei que um alimento é indigesto quando a nossa barriguinha não dá conta de dissolver o que comemos. Ela me mediu dos pés à cabeça e perguntou se era indigesta só para ela. Confesso que quase engoli a manga inteira.

Quase engasgada, disse que ela estava certa, e que daria apenas um pedaço pequenininho e menor do que a sua barriguinha. E tudo se resolveu. Ainda bem que eles são questionadores e nos ensinam a sair da nossa rigidez.

A maternidade nos faz leoa, apresentar o nosso lado mais primitivo se uma das nossas crias for atacada. Somos capazes de levantar um carro ou abrir a boca de um urso se for necessário.

A maternidade nos torna fortes e resilientes ao mesmo tempo que nos fragiliza, pois quando acontece algo com os nossos filhos, qualquer coisa que seja, já é o suficiente para a nossa mobilização interna.

A materna idade é uma idade eterna que não finda nunca, pois, mesmo aquelas mulheres que não podem ter filhos e que adotam os seus sobrinhos ou tomam um filho de outrem como seu, cultivam este amor para sempre. Isto diz respeito ao nosso feminino, aos hormônios e principalmente a ocitocina que é o hormônio do relacionamento. Uma mãe pode estar em sono profundo e quando o seu bebê chora ela acorda, pois é na maternidade que este hormônio está mais ativo do que nunca.

A maternidade diz respeito ao cuidado, a responsabilidade de dar a vida a um ser que necessita de força para tomá-la e seguir.

É a maternidade que abre caminho para o exercício da paternidade e é muito importante para os filhos que o pai seja reconhecido neles.

Maternar é o exercício da ternura que precisa ser oferecida a toda criança para que ela aprenda o seu significado e perpetue isto. Nós reproduzimos aquilo que aprendemos.

E se a sua mãe deixou de lhe maternar, por algum motivo, que tal experimentar fazer isto com ela para que sinta e perceba que, apesar de tudo, ela lhe ofertou um grande presente que foi a sua vida?

Artigo publicado no jornal Diário de Ilhéus em 17/5/2019.

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