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Nossos bichos peçonhentos!

Mulher, Cabeça, Retrato, Escultura

A semana retrasada fizemos um mutirão de limpeza aqui no espaço onde resido,  situado na Zona Rural do Sul da Bahia. Foram cerca de onze pessoas mobilizadas na retirada de um lixo antigo que permeava o nosso espaço. Muito plástico, latas velhas, vidros, sapatos.

Quando mexemos no lixo que se encontrava por baixo de uma grande pedra, duas cobras jaracuçus vieram em nossa direção e foram atingidas por um facão certeiro.

No início foi um alívio e depois veio a reflexão. Aqui trabalhamos em sistema de parceria e fazemos parte de uma rede agroecológica e praticamos a agricultura biodinâmica. E eu mesma me perguntei: que discurso é este desalinhado com a ação?

E me envergonhei e pensei o quanto as cobras e os bichos peçonhentos ativam em nós o Ser mais primitivo. Nosso cérebro reptiliano. O que fazemos quando sentimos a nossa vida ameaçada. Êpa! Ameaçada? Quem sentiu-se ameaçada foi a cobra e por isso defendeu-se. E como também nos sentimos ameaçados agimos da mesma forma. Com medo de morrer, atacamos e matamos.

Agora existe uma diferença entre nós e as cobras. Nós pensamos! Pensamos?

O que me deixou menos angustiada e  não menos reflexiva, é que aqui em nossa propriedade existe um critério estabelecido para morrer ou permanecer viva: se é venenosa morre e se é pacífica vive.

As nossas estratégias de sobrevivência são as mesmas  dos animais: ou lutamos, ou fugimos ou ficamos imobilizados, presos na imensidão do medo. E quando vamos parar de matar aqueles que fazem parte de uma cadeia que traz equilíbrio e vida para o sistema?

Será que seremos capazes de identificar no espaço da floresta as cobras e os bichos peçonhentos, observá-los e deixá-los seguir?

Penso que sim. Recentemente assisti um filme no youtube que me demonstrou isto, justamente com uma cobra jaracuçu. E ela foi provocada e mesmo assim seguiu atenta, na defesa e o homem foi capaz de deixa-la seguir.

Será que vamos ser capazes de lidar com o peçonhento a partir do momento que sabermos lidar com os nossos bichos internos? A partir do momento que tivermos a sabedoria e a consciência ampliada a ponto de acolhe-los e percebermos que somos todos eles também? E que atacamos, fugimos e nos imobilizamos da mesma forma e, se encararmos e acolhermos os nossos medos internos seremos capazes de lidar melhor com eles?

Será que eles ativam os nossos bichos peçonhentos e aí é que o bicho pega?

Em nossa região, cuja a lida maior é com o cacau, as cobras são muito importantes para controlar o excesso de ratos. Se não fossem elas o nosso cacau viraria casa de picapau.

Então, quando seremos seres efetivamente ecológicos com respeito a dinâmica da vida? Se somos Seres de Luz e energia, o quanto de determinado ponto atraímos o semelhante? Este bicho peçonhento?

Então fiz uma poesia que diz:

Matou a cobra
E mostrou o pau!
E deixou o rato
Que comeu o cacau!

Pobre daquele
Que desconhece o sistema
Que mata a cobra
E desequilibra o Ecosistema.

Tem medo de cobra
Que do homem se defende
Devia é ter medo de gente!
Oxente!

Artigo publicado no jornal O Diário de Ilhéus em 18/11/2019.

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