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Fala que eu te escuto

Imagem de Couleur por Pixabay

Sabe aqueles dias que você parece que está vazia de palavras? Sou eu hoje para me fazer presente aqui. Estar vazia de palavras é aquele momento que ao final do dia você quer ficar em silêncio.

Tenho o hábito de escrever à noite. No silêncio. E agora, neste exato momento, o silêncio quer se fazer dentro de mim. Você já passou por isto?

Rever o seu dia, as coisas boas que vivenciou, os desafios que superou e no final do dia dizer: por hoje basta. Está de bom tamanho. Por que a palavra se fará pelo silêncio. Não há necessidade de se dizer mais nada.

Rubem Alves no seu texto Escutatória comenta que o mundo quer aprender a falar e ninguém quer aprender a ouvir. E aprender a ouvir exige silêncio.

Ele se reporta ao silêncio da Alma, não basta o silêncio de fora e sim aquele silêncio, aquela escuta interna onde a gente ouve coisas que jamais ouviu.  E que também, além de passar por uma escuta interna, precisa apreciar a escuta do outro.

Todas as vezes que vou a Salvador, almoço com um amigo irmão, muito especial, que as vezes, para não dizer sempre, se queixa que eu não o  deixo falar. Eu adoro contar histórias nas suas minúncias e ele me pede para deixar de entretantos e ir logo aos finalmentes rs. E, embora seja verdade o que ele me diz, todas as vezes que ouço ele dizer isto eu respondo: Você precisa entender que quem mora longe dos amigos e família, que tem a sua própria companhia diariamente, precisa de alguém que lhe escute e lhe compreenda. Portanto, tenha paciência. Ele estava saindo de um ano sabático e queria falar também e eu, verdadeiramente, não o deixava falar.

Parar para uma escuta interna e escutar o outro, é um grande desafio e deve ser um exercício diário. A qualidade da presença, em um processo de escuta é de fundamental importância para que o refletir sobre aquilo que se ouve faça sentido para quem fala e quem escuta.

Um diálogo só se estabelece quando paramos a conversa intrapessoal, exatamente esta que impede uma escuta acurada e bem processada. É costume, da maioria das pessoas, enquanto o outro fala e, principalmente se o outro fala sobre temas que mexem com as nossas emoções, tagarelarmos, internamente, sem parar buscando justificativas para a fala do outro, e assim perdemos o fio da meada e deixamos de estar presentes na conversa.

Hoje com as redes sociais, não temos tempo para os encontros, para as longas conversas e escuta, para aprendermos e se divertir com o outro e dar boas gargalhadas.

Eu adoro os encontros, com amigos queridos, que nos trazem aprendizados e nos chamam à escuta apurada.

Como diz o querido Rubem Alves, é chegado o momento de ouvirmos o humano que habita em cada um de nós, que clama pela nossa humanidade, pela nossa solidariedade.

É preciso lembrarmos que é o outro que dá sentido à nossa existência e a nossa razão de viver.

E como me disse o meu querido amigo no nosso último encontro: agora fala que eu te escuto. 

Artigo publicado no jornal Diário de Ilhéus em 6/03/2020.

Artigo publicado no jornal o Diário de Ilhéus em 28/02/20.

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