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O grito das maritacas

No dia sete de julho de dois mil e vinte , na cidade de Ilhéus, como de costume, as maritacas acordaram e gritaram de alegria. Anunciavam a chegada do dia e saíram para se alimentar. Ao final da tarde, para os seus lares já não podiam retornar, pois as amendoeiras que as abrigavam foram derrubadas. Elas gritaram anunciando a sua agonia. E assim foi o final do dia.

As maritacas sem abrigo, foram buscar nas sacadas dos apartamentos vizinhos, nas telas protetoras um lugar para se abrigarem.

Foi uma cena tão impactante, que uma grande quantidade de pessoas passou a se incomodar com os gritos das maritacas e deixaram de se acomodar nos seus espaços.

Foi como uma onda no mar que se espalhava feito poesia. O grito da agonia transformou-se em um despertar. Ecoou além da cidade e muitos iniciaram um grito uníssono avisando ao mundo o que aqui estava acontecendo. As maritacas daqui onde estou, há 70Km de distância de Ilhéus, começaram a gritar, como se percebessem a agonia das suas companheiras.

Surgiu assim o grupo Preserva Ilhéus, que em menos de uma semana obteve mais de doze mil assinaturas em uma petição solicitando às autoridades a imediata suspensão da ordem de corte das árvores e uma série de demandas. O Ministério Público solicitou à prefeitura que suspendesse o corte das árvores até que seja apresentado um plano de ação para sanar os danos causados.

Esta é a nossa força. A cooperação, a coletividade, a união, a qualidade de presença para o alcance do objetivo desejado. E o nosso desejo é que os gestores públicos sejam mais sensíveis e percebam que a natureza não se aponta com um dedo para fora. Se aponta para a natureza, com o dedo direcionado para cada um de nós. Nós somos a natureza. E somos afetados, cada vez que uma amendoeira é derrubada e as maritacas desabrigadas.

As amendoeiras e as maritacas fazem parte da memória afetiva de todos nós. Fazem parte da história de cada pessoa que vive nesta cidade. Como se apaga uma história com o romper de um motosserra? Como se eliminam amendoeiras e maritacas como se nada fossem?

Plantarão palmeiras imperiais em um jardim na Soares Lopes? Em que século estamos? Em que país vivemos? Palmeiras imperiais? Que rei sou eu? Onde estão as árvores que representam a nossa Mata Atlântica?

As maritacas vieram anunciar uma tragédia. Quem passa pela cidade percebe o revoar destas aves em busca de uma solução e as encontram no chão, nas sacadas, cansadas e agonizantes. Uma grande tristeza e ao mesmo tempo uma gratidão imensa a estes seres que precisaram pagar um preço alto e despertar uma cidade para algo que está acontecendo.

Muitos devem estar se perguntando para que tanto rebuliço por conta de umas maritacas ou de amendoeiras. As maritacas, para quem ouviu os seus gritos de socorro, é um despertar de consciência. É um grito de esperança para que todos nós preservemos o que há de mais importante, a vida. Ou você acredita que você viverá sem os pássaros, sem as árvores, sem os organismos vivos, sejam de que espécies forem?

Um ensinamento profundo, que convida a cada um de nós a se perguntar “que cidade queremos?”

Tenho a esperança que nós, cidadãos, participemos mais dos espaços de governança, para lá dizermos como desejamos o nosso futuro, o futuro da nossa cidade, pois os gritos das maritacas, os gritos das maritacas…. ninguém apaga.

Eulina Menezes Lavigne é mãe de três filhos, escritora, poetisa, administradora, empreendedora social, terapeuta clínica, consteladora familiar há 16 anos, trabalha com trauma utilizando a técnica, naturalista e psicobiológica, SE – Experiência Somática.

Para entrar em contato clique no link:

http://bit.ly/WhatsEulina

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