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A consciência negra do ponto de vista sistêmico e espiritual.

Há algum tempo se você me perguntasse sobre a consciência negra eu lhe responderia que isto era desnecessário. Que a consciência é uma só, que assim como o branco é racista o negro também é. Que todos passamos pelos mesmos eventos e assim caminha a humanidade.

Hoje, com mais maturidade, lhe respondo que a consciência deve ser uma só e infelizmente, ainda temos um caminho a percorrer. O racismo existe sim e é um fato.

Maiores do que as dores do corpo, são as dores da alma. São dores provocadas por traumas vivenciados por nós e por, inclusive nossos antepassados. No fundo a nossa alma guarda a dor da Humanidade. E essas dores podem ser resgatadas, ativadas a qualquer momento por uma simples imagem externa ou interna ou palavras escutadas, ou expressões corporais, um olhar, que evocam sentimentos e emoções represadas.

Estes sentimentos podem ser originados de rejeições, espancamentos, maus tratos de uma forma geral, abandonos, uma infinidade de possibilidades.

Inserindo os negros neste contexto, imaginem vocês as memórias que guardamos em nossa alma: da escravidão, da menos valia, da mercadoria trocada, comprada, da falta de direitos e do excesso de deveres, será que conseguiremos imaginar o desafio que é ser um negro neste país?

Não, eu, de cor parda, neta de uma negra nascida filha de escrava, talvez consiga imaginar um pouco. Imaginar mesmo, só consegue quem é negro de pele.

Qualquer pessoa, muitas vezes, sem intenção, com a simples expressão corporal, pode ativar em outras pessoas a rejeição. E com referência aos negros, pelo seu passado, recente, isto pode se manifestar com maior intensidade.

E quando acontecerá a cura?

Aprendi na minha formação em Constelação Familiar que iremos nos curar quando compreendermos quem pertence à nossa alma coletiva. E quem pertence? Nós, com todos os nossos irmãos, inclusive os não nascidos ou falecidos precocemente; nossos pais e sua família, incluindo seus parceiros anteriores; nossos avós e toda a sua família, incluindo seus parceiros anteriores, bisavós….

Além do nosso sistema familiar, estão também todos aqueles cuja perda ou morte ocasionou uma vantagem para nós e nossa família, ou cuja morte foi causada por culpa de um dos nossos familiares ou que causaram danos graves à nossa família.

Inclua então nas dores vivenciadas por sua família, as dores da separação, da escravidão, do chicote, da negociação. Essa é uma dor sistêmica, que está inserida em cada uma das nossas células em um movimento de culpa e inocência.

Iremos nos curar, quando além da consciência negra, que trata da aceitação de que o negro, principalmente neste país,  precisa impor a sua coragem para  fazer valer os seus direitos, quando todos tivermos  a consciência de que devemos  desculpas a este povo por todos aqueles que, por se acharem superiores, os humilharam, os separaram dos seus pais, os mataram, os fizeram de objetos e lhe deram um valor de compra e venda.

Iremos nos curar, quando os negros aceitarem, em seu coração, esse pedido de desculpas e tudo assim ficará reparado e em paz.

Quando compreendermos que temos uma alma coletiva, que Rupert Sheldrake, chamou de campo coletivo ou campo morfogenético, que se movimenta dentro de um campo espiritual que, para a Constelação Familiar, diz respeito a um sistema de crenças.

Existe sim, um sistema de crenças inserido em nossas células de que os brancos são superiores aos negros, que os negros estão para exercer atividades serviçais, além de tantas outras. Assim como, também, existe um sistema de crenças nas células dos negros de que são inferiores.

Talvez quando ampliarmos a nossa consciência espiritual, que segundo Bert Hellinger serve a uma ordem abrangente, que está a serviço do amor e da vida, de forma igual para todos, dando a cada pessoa o lugar que lhes cabe no todo, e que este lugar não pode ser disputado com ela por ninguém, quem sabe reinará a paz.

Artigo publicado no jornal Diário de Ilhéus em 27/11/2020.

Eulina Menezes Lavigne é mãe de três filhos, escritora, poetisa, administradora, empreendedora social, agricultora orgânica, terapeuta clínica, consteladora familiar há 16 anos, trabalha com trauma utilizando a técnica, naturalista e psicobiológica, SE – Experiência Somática.

Para entrar em contato clique no link:

http://bit.ly/WhatsEulina

1 comentário

  1. Acredito que esse tema é muito delicado para enquadrarmos em qualquer tipo de conceito pré estabelecido, muitas dessas narrativas parecem ter que ser aprofundadas em direção à uma remota perspectiva de cura. E não há cura possível se não ouvirmos a dor do outro, primeiro. Nos apressamos nas definições e em relativisar sentimentos sem primeiro passarmos por uma auto crítica que começa a nivel histórico e afunila à nivel pessoal. Somos racistas, me parece ser aí o ponto de partida. Reconhecer e admitir o racismo estrutural que corre na nossa veia. É muito complexa essa abordagem. Não é nem sobre a tonalidade da pele. Sou filha de um homem negro e embora a minha pele seja clara eu não sou branca. Eu sou negra porque a questão não está na tonalidade da pele, mas na etnia, na descendência e na ancestralidade. A frase “sou negra” precisa ser dita, a descendência reconhecida e a etnia honrada, mesmo que sua pele seja morena, parda, clara. O racismo é sistêmico, corre na seiva do ser e enquanto não admitirmos isso, não haverá cura possivel. Porque racismo não é problema dos pretos de pele. Racismo é um problema de quem tem a pele branca, ou dos que de pele clara, não se reconhecem negros apesar de sua descendência.
    Muito prematuro cobrar o perdão da raça negra escravizada.
    Muito prematuro pedir de alguém o que nós mesmos não conseguimos entregar.
    Nos curemos e estaremos curando toda a humanidade.

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